'O falar já é o agir'

Olfato

Você sabe que alguma coisa mudou na sua vida, quando recebe uma caixinha vinda de longe, e dentro dela vem algo que você esqueceu neste lugar - ainda que um brinco - e uma camiseta vermelha.
 E antes desta camiseta vermelha chegar você recebe a dica: "cheire". Então cheira e sente o perfume.
 É demais pra um coração que anda apertado saber que tem alguém lá longe que ficou com um pouquinho do seu cheiro e que esse mesmo alguém lhe enviou uma camiseta vermelha com o cheiro dela.
 Que conste então, uma epifania é cheirar uma caixa e uma camiseta à 1h00 da madrugada e lutar para as lágrimas pararem, sei lá, tem cada coisa que a gente nunca imagina que vai fazer. E, lógico, cada amor que a gente nunca imagina que vai sentir.

Consumação

 Vou lhe dizer o que amei:
 Não saber exatamente o que eu estava fazendo desde o começo, não ter a mínima ideia do porquê de se entrar em um ônibus com frio e sono para uma viagem de dez horas. Amei chegar e te encontrar na multidão despretensiosa, enquanto seu olhar seguia o meu, seu sorriso penetrava em mim. Sensação estranha e terna, descer e ser beijado - e você pode bater o pé dizendo que fui eu que te beijei, jamais afirmarei que o fiz! -, então naquele momento a rodoviária parou pra ver dois mundos distantes entrarem em contato.
 Amei beijar sua mão dentro do taxi, mesmo não lembrando depois que havia feito isso; amei ter de chamar dois elevadores; tomar chuva parando o taxi pra você; saber que o ENEM foi adiado "dhy novo"; amei ver você com e sem escova; ser submetido a uma sessão de terapia com Própolis; ser atração turística; saber o que são cinquenta quilos, e o que não são vinte e três; amei ser calado no aeroporto, como nunca amei um "cala a boca" na vida...
 Se eu pusesse cada coisa em palavras, deveria resumir segundo por segundo do que foi ter você pra mim, pois foi a cada instante intenso, confuso e maravilhoso.
 Saiba que há para você o garoto que viveu vinte anos de possibilidades até um instante de consumação, e a vida vale a pena por isso, já diz o professor.
 E de tudo que se passa, resta-me na pele o cheiro de meio-dia: essa vontade de sair e ganhar o mundo, bem quando o sol se abre e dá chances iguais a todo mundo, a ganância pela vida e por todos os sentimentos intensos, que está em sua pele e é uma parte da minha agora. Eu te amo.

Assimetria da Partida.

Será que hoje é o início
do resto dos dias da minha vida?
Será que amor é ofício?



Confesso, não sabia,
se devia
ir ou ficar.


Será que é romantismo
dizer que senti
dentro de mim o escapismo.


O medo não é troco
dentro do pouco
que vão me pagar.


Lá viverei,
aqui não posso,
chorar.


Estou a chegar!


Arquivo bienal.

    De fato, se eu (e observe que pelo pronome, mais uma vez o ego ísmo/centrismo imperará no texto) quisesse fazer um estudo cronológico da existência desta página da internet, nomeada pelo delicioso e quase ínfimo verso de Chão de Giz, confundir-se-ia com minha evolução ao decorrer desses dois anos. Principia-se com a criação do blog naquela noite de julho de 2007 e o estabelecimento de sua ocupação na world wide web: uma página vazia
    Uma semana depois, vim a conhecer aquela que seria minha eterna Pierrot, não sem antes pseudonomear-me de Harlequin: fato muito aceito, usado e estudado por mim. Nossa convivência forçada aconteceu apenas no mês seguinte, quando todo o batismo Comédia Dell'art supracidado ocorreu.
   Em setembro do mesmo ano, este antro de fato nasceu, saindo da gravidez nua em que se encontrava e parido com a colagem do texto todo remendado do Plínio Marcos, recém lido e cheio de necessidade de aparecer por aí fazendo referência a mim mesmo. Aquela que me aguenta e ama - reciprocamente - leu e comentou. Comecei a gostar da ideia.
   Seis meses de curso pré-vestibular focados apenas na alcoolização e na descoberta dos horizontes sexuais e antropológicos - absurdo e real, creia - formataram o resultado de não se passar no vestibular para a pública e na consolidação daquilo que eu espalhei aos quatros ventos: a decepção de continuar a viver em Itu e de estudar no lugar que sempre falei mal. Tudo isso na verdade não passava de ser o que eu sempre quis fazer, queria fugir daqui só pra viver minha vida de boemia reflexiva, conquanto ainda tivesse a quem recorrer.
   Voltando à história do meu compilador virtual, a ascensão à vida acadêmica, cujo resultado não foi nada inovador, trouxe-me de novo àquele ímpeto de escrever e ser lido, coisa que o fiz, em fevereiro deste ano que passou. O amigo pra todas as risadas e papos lia, comentava e incentivava - isso tudo sem que eu pedisse - daí fui descarrilhando palavra por palavra. Consegui dar continuidade nisso, só pela grande ajuda do amigo lá de longe e de perto, que sempre achava boas minhas ideias. 
    Aprendia na instituição eternamente criticável os novos conceitos e formas de exploração do código, o que foi deliciosamente útil ao meu intelecto pseudodramaturgico, sempre citado por mim aqui ou acolá. Aventurei-me na prosa: contos, peças, crônicas, slogans, diários (exclusivamente neste texto aqui) e o que mais o humano possa criar nome; e, cônscio do risco, também neste universo poético explorado tão bem por tantos, inclusive pelo meu amigo que dá raiva do tanto que gosto.
  Só um paragrafozinho sobre a poesia: a primeira da vida foi pra minha maior cúmplice e eternamente primeiro amor, mas o texto não foi upado pra rede; o segundo - já aqui - foi escrito pro amor da minha vida que eu ainda não conhecia, obsoleto dizer que já sei quem é e por ela já foi lido. De resto, poetizei para mim próprio e para um ou outro flerte. Fim do parágrafo sobre textos em versos.
  Entrando no conclusivo, dois anos de textos são a minha prisão com a realidade, o meu "eu" refletido de uma forma arquivativa. Quero daqui a 40 anos ler um por um e rir dos meus desencontros e do processo de segmentação da minha personalidade lúdica e lírica. Eu mereço os parabéns vindo de mim, por manter mês a mês, com pouca ou muita produção, o hábito da escrita, para que assim eu nunca fuja dos meus objetivos - sabe-se lá quais - e das minhas ganâncias. 


"Finjo que escrevo para os outros, a boa verdade é que o escrevo para fugir de mim e leio-me para voltar a si." M.A. 

Algo a dizer aos meus amores:

 Quanta coisa devia agradecer:
 Família, amigos, trabalho, saúde, vida e tudo mais que contém uma existência dessas bonitas de se ver.
 E não é isso que deve ser colocado em pauta, não agora, não sob essas condições.

 Eu, Marcelo, venho humildemente perguntar se sou o único que pensa ter uma vida dessas de Hollywood. Uma novela gravada no PROJAC, onde tudo dá certo no final e provação por provação serve para aprender uma lição nova. Uma deliciosa repercussão da personalidade que passa pela nossa frente da maneira mais despretensiosa e que desperta aquela  curiosidade de saber "quem sou eu aos olhos dos outros?"
 E é bem isso aí. Eu fiz, no mínimo, três escolhas de suma importância na minha vida e sofro no cotidiano as consequências destas. 
 E todo o motivo deste texto é agradecer meus amigos e familiares por terem tamanha paciência comigo, após refletir que nem eu mesmo me aguento e entendo

Caminho.


                                                    

Um gosto pela vida

Já passei agosto esperando setembro e bem me lembro.
 Se pusessem o menino em frente ao espelho e o reflexo fosse maior?
 Quem se vê projetado nos próprios sonhos, tem a habilidade de tecer seus próprios tapetes para limpar os pés da sujeira da decepção.
 As coisas são bem assim: o homem pensa ter certeza do que será amanhã simplesmente pelo subterfúgio do que fora ontem.
 Um copo cheio de prolixidade no café da manhã não faz mal a ninguém: aviva os ânimos subjetivos que há muito não circulam pela corrente sanguínea, dando aquele gostoso comixão e vontade de cuspir palavras uma a uma, e modificá-las os sentidos.
Nada tenho vez em quando tudo, tudo quero mais ou menos quanto.
A grande beleza é esquecer momentâneamente o controle que temos sobre nossa vida e que as maiores decisões resumem-se em ficar parado ou não.
E como eu não nasci pra dar bandeira:
Quero viver, quero ouvir quero ver.