28/01/2009

A pedra no rio.

O ano era algum em torno de 1930. A moça era jovem, tinha dezesseis ou dezessete quando casara. O marido era mais velho, beirava os vinte e seis ou os vinte e oito. Ninguém sabia ao certo. As más e sinceras linguas diziam que a pressa no casamento aconteceu pela desonra da moça. Boato ou não, havia acontecido e ela pegou barriga.
Os patrões do rapaz deram moradia e função a ambos. Ele carpinava, roçava, ajudava na lavoura e ordenhava os animais. Ela ficava na casa grande, fazendo companhia e satisfazendo os caprichos da jovem senhora. A barriga crescia a cada dia.
Uma das funções da rapariga era lidar com louças e roupas, trabalho o qual lhe satisfazia, pois ia pra beira do rio, com o céu e a imensidão do mundo [nada interessantes a ela] acima. De bacia na mão - o alumínio alumiava-se pelo sol - cantarolava uma das canções que ouvira da ama mais velha. Usava a barrigona de apoio para algumas peças de roupa, enquanto esfregava uma na outra de cócoras.
A menina gritou por ela lá da casa grande, a moça soltou um resmungo baixo que se misturou com a canção, olhou e levantou. O barro estava molhado, escorregou e caiu sentada.
Foi grande a comoção -ainda sim amenizada, pois a parteira da vila estava próxima da margem - daí então um pulo pra que se aglomerassem.
- Caiu ? - dizia o marido chegando - Como?
- Sentada. - a parteira fitou-o com repulsa - Afasta, afasta. Tráz a tesoura lá de dentro, esquenta ela antes.
O jovem saiu ligeiro, a rapariga berrava as dores.
- Esse bucho é de oito mês. Quando ocê deitou com ele que parou de vir as regras?
A moça esitou. Dizer pra própria mãe coisas do tipo não era de seu agrado.
- Dispois da quermesse de Santo Tonho. Antes do casório.
A velha senhora engoliu o sermão, saber que a filha tinha sido desonrada não era mais novidade, apenas confirmação.No entanto foi depois do que imaginara que tivesse sido. Fez as contas e disse:
- Então é bucho de seis. Mesmo assim caiu sentada, tá coroano já. Vo ter que tirar.
Do alto de sua inocência e sofrimento a filha perguntou:
- E vai sair por onde?
Mãe conhecia filha, e respondeu firme e tradicionalmente.
- Pelo mesmo lugar que entrou.
Foi um susto.
- Mas como? Vai arreganhar?
A senhora então pegou uma pedra próxima e atirou no rio. A moça observou. Em seguida a póetica explicação.
- Vês? A água abre, agita pra pedra passar, mas depois que passa, a água fecha e volta tudo como era antes.
Tudo o que precisava ser sabido, já era. As dores aumentavam, a dificuldade também. De quando em quando entre urros a jovem perguntava
- Vai demorar muito?
O marido voltava com o pedido, foi difícil esquentá-lo, mas antes ainda foi mais dificil descobrir de que se tratava uma tesoura.
- Vai demorar muito? - insistia a rapariga.
A mãe ignorando, terminou e puxou. Gêmeas. Mortas. Usou a tesoura nos cordões, arrancou a placenta. Jogou tudo no rio. Olhou para o marido e fez com os dedos o número "dois". A rapariga intrometeu-se
- Vai demorar duas hora ainda??

23/01/2009

Conselho X Consciência.

Perguntei:
- Não quero mais viver assim! O que eu faço? Socorro!
Responderam:
- Se ela voltar com isso, chama num canto, estufa o peito e manda a real. Nem que suas próprias palavras lhe machuquem.


Sou uma vergonha pra classe teatral.

21/01/2009

Estética

Tem coisas as quais a gente sinceramente sabe que não nasceu para, certo?
Uma delas, em minha vida, com certeza é tudo o que tange o conceito de artes plásticas. Eu até consigo apreciar uma boa obra de arte, uma escultura e uma foto quando vejo, mas definitivamente não possuo o dom para fazê-los, sequer pra comecá-los!
Estou dizendo isso porque sentei aqui na frente desse computador, super de boa, pra procurar aprender um pouco sobre webdesign ou essas coisas do tipo, ou então encontrar imagens que me agradassem para meu blog. E é aí que encontrei a dificuldade. Eu sou tão hiperativo/ indeciso que olhei quatrocentas e oitenta e três mil e cento e vinte e uma imagens e não escolhi nenhuma. Minha idéia pro Meros Devaneios Tolos é colocar algo que faça jus ao seu nome. Daí dei uma escafurchada na internet em busca de um template ( tipo, o formato do blog) pronto. Encontrei dois em um blog dedicado somente a isso Eu achei as duas mais bonitinhas, pois, reafirmo, entendo patavinas dessas coisas de plasticamente correto. Uma tem o nome IDEIA e o outro PENSAMENTO, tudo a ver com DEVANEIOS, diz ae?
E agora to postando aqui ainda indeciso, com um template aberto em cada aba do Chrome. Não, não vou fazer uma enquete. Não, não vou pedir a opinião de vocês. O blog é meu, uai.
Enfim, a cada dia mais eu acredito que nasci pra escrever e pra fingir, e não pra entender sobre coisas estéticas. Parabéns ai pra quem consegue.

20/01/2009

Entrelinhas de um criado mudo.

Eu acho que tenho certeza daquilo que eu quero agora; daquilo que mando embora;
daquilo que me demora.
Eu acho que tenho certeza daquilo que me conforma; daquilo que quero entender
e não acomodar com o que incomoda.
Não acomodar com o que incomoda,mas...
Acordava do mesmo jeito de sempre: feio, descabelado e sem um pingo de vontade de viver.
Vivia do mesmo jeito de sempre, também pudera, sua vida era completamente sem graça... Pra ele!
Descrevia-se na terceira pessoa, por achar bonito. Dizem que essa mania não passou ainda, não por enquanto. Era vago em suas palavras, pra não se denunciar, não se expor, não ter que dar satisfações.
Brigava constantemente com quem mais amava, amava constantemente quem mais brigava.
Chorava.
Sentava em frente uma máquina praticamente todos os dias da sua vida, o dia todo, aproveitando dela apenas as pessoas que faziam o mesmo.
Precisava de um banho frio, um espelho, uma surra do destino. Precisava de distância de casa.
Reencontrou a si mesmo. Via uma criança que deixou de lado seus brinquedos pra viver uma vida muito perigosa. Via que deixara sua melhor companhia pra trás.
Viu seu sonho dos onze anos. Tudo o que queria ser jogado ao léo, pois concluiu o melhor possível: desistir de um sonho não é deixar de lutá-lo, mas sim deixar de fazer o que está a seu alcance, paulatinamente, no empenho de realizá-lo.

E quando eu vou, é quando eu acho que: onde é que eu tô é pouco e tanto faz.
Seja o que for, seja o que surge e some.
Seja o que consome mais.
Seja o que consome mais.
Faz...

Num belo dia, decidiu fazer a maior loucura geográfica da vida dele, e foi. Viu o que precisava ser visto: si próprio.
Precisou reconhecer algo parecido com que se tornaria se não tivesse abandonado suas convicções no meio do caminho. Veio uma dor tão grande, porém não aquela que lateja. Era uma que gritava sem voz dentro dele mesmo. Masoquismamente amou sentir aquilo.
Ver-se depois de tanto tempo, foi como encontrar aquele álbum de fotos há muito esquecido dentro de uma gaveta, folhear foto por foto e consumir seu passado. Já sabia o que faltava pro futuro. Só lhe faltava FAZER!

E a historia que nem passou por nós direito ainda, pr'onde é que foi?

11/01/2009

Nem sempre crônicas fazem sentido.

Era mais um dia comum em que ele chegava em casa, ao fim de um expediente de trabalho não tão cansativo quanto deveria ser, mas o suficiente pra ele se sentir bem consigo e seguir adiante.
Como estava com tempo livre à noite, decidira por entreter-se com alguma coisa ou outra, sem significado. Sem significado tal qual sua vida, seus vícios suas paixões...
Ele - eu, você, nós - estava certo que nada mais fazia sentido. Não sentido no sentido sentimento, mas no sentido sentir. Acordar cedo, ir ao trabalho, ocupar-se lá de algo que lhe fazia útil, tornar à casa (semelhantemente ao bom filho), entreter-se, conversar com alguéns e ir dormir... tudo tão obsoleto, vazio e oco.
Pelo óbvio, ele procurou de onde viria a culpa: de si próprio ou de outrem? Num primeiro momento culpara seus desamores e desafetos; em seguida, culpara-se; por fim, desistiu de procurar cabelo em ovo e foi dormir.
Chorar na cama que é lugar quente.