27/04/2010

Transição despercebida.

        Talvez haja uma lacuna na divisão etária de nossas psicologias e sociedades, em consequência da priorização pelo desenvolvimento abrupto que se dá em determinada idade. É uma faixa que chega e perdura pouco - pouquíssimo - e que só quando ela passa, percebemos-lhe. Para alguns, dura um ou dois anos, para outros uns cinco e raramente é infinita. É a pós-adolescência.
        Esta fase principia-se – ao menos em nossos moldes sociais – com os dezoito anos aproximadamente. É quando o individuo tem consciência de que apenas 25% das coisas babacas que faz efetivamente têm fundamento e respaldo. Trabalhar não é mais pra comprar a calça jeans no fim do mês, ou pra dar uma ajudinha em casa, não só isso, ao menos; é necessário o esboço consciente do que se planeja profissional e economicamente no mínimo para os próximos cinco anos. Não se ganha mais dinheiro para ir à balada e torcer para o juizado de menores não barrar na porta, o que pode até garantir alguma diversão, nem se bebe por afirmação social, para provar que você é menor de idade e sabe sim a definição de um bom porre, ou até como dar trabalho para seus amigos no fim da noite. Saímos, bebemos, dançamos; então, por mera conveniência psíquica nesta fase.
        Parte dos pós-adolescentes é recém formada no Ensino Médio e enfrenta um embate: o estudo não é mais uma obrigação. A maioria dos empregos com alguma dignidade irá lhe aceitar com o certificado de segundo grau, todavia nem sempre este quase adulto estará feliz com isso: então resolve tentar uma Universidade, um ensino profissionalizante, uma especialização etc. Uma das crises de personalidade começa a existir neste ponto, já que durante quase duas décadas o individuo tenta concatenar gostos e valores para influenciarem no direcionamento de sua formação. A problemática enfrentada, contudo, é a de que quando se conhece o objeto de estudo a fundo, descobrem-se suas fragilidades e seus pontos não interessantes, este é outro trauma pós-adolescente. Exemplificando: Paulo sempre gostou muito de Informática, até ingressar num curso superior de Análise de Sistemas “por ser da área de computação, né?”. Ledo engano. Todo o delimitado é importante, a generalização por área é perigosa. Definitivamente é algo mais – chato ou legal – do que “área de computação”.
        Outro fato ímpar ocorre na pós-adolescência, podendo até ser o acontecimento mais marcante e único da vida. Trata-se da consolidação de amizades. Quem é seu amigo ainda, mesmo após convivências forçadas no ambiente escolar, ou fora dele, acredite, o faz porque quer e gosta de você – por mais incrível que possa parecer. Nessa idade sua personalidade já é consolidada e repleta de aspectos positivos e negativos, e quem consegue desenvolver um interesse em sua companhia está cônscio dos prós e dos contras.
        O sexo também passa a ser encarado de forma diferente. Entende-se o porquê de fazer sexo e não se entende o porquê de querer amar e ser amado. O prazer é mais controlável e não mais contido. Namoros são a base do que você vai entender um dia como casamento – isso se já não é casado e entende há muito tempo -, deixando de ser “estar com a pessoa porque me sinto bem”. Ora é um jogo de conveniência que envolve sexo, ora é um sexo de conveniência que envolve jogo.
        Há alguns fatores secundários, como o modo que você passa a encarar sua família, sabendo que está a poucos passos de constituir a sua própria; da dor de cabeça que dá dormir só quatro horas por noite; de como se pode conhecer gente muito legal perto de você e gente muito chata longe de você, apesar de sempre ter pensado ao contrário; que o conhecimento leva sim a algum lugar, mesmo não se sabendo ao certo que lugar será este. E que você vai engordar (ou emagrecer, pra quem não quer) mais, não adianta.
        Por fim, a pós-adolescência só é de fato sentida quando se esvai. O devir encarrega-se de eliminar velhos conceitos e de fazer-nos continuar a fluir. No dia em que você reclama por estar sol, ou por chover. Quando você não se importa mais em acordar cedo e enfrentar um dia todo de trabalho seguido de uma noite de estudos – não necessariamente nesta mesma ordem – por saber que “a vida vai ser sempre assim”. A partir do momento em que o redemoinho de obrigações do dia seguinte não tira mais o seu sono porque “sempre tem coisa a se fazer”. Quando o dinheiro não é digno, mas sim um objeto de sobrevivência...
        Você já é adulto e saiu de uma fase de transição. Resta-lhe fazer qualquer coisa para que sua própria vida pare de incomodar.