07/05/2012

Devir.

      Sabe, eu lutei muito pra chegar até aqui. De verdade... talvez a maior batalha que eu travei tenha sido contra mim mesmo, para controlar os meus impulsos de chutar o balde que surgem de vez em quando. E eu consegui no meio deste processo todo uma coisa que eu pensei que demoraria muito mais para conseguir. Algo que chegou de um modo que eu nunca imaginaria. Eu consegui a minha liberdade, e confesso confuso e desapontado: eu não sei o que fazer com ela. 
      Flagrar-se depois de viver certas situações tendo que lidar com os mesmos problemas velhos, as mesmas dificuldades de sempre e estar simplesmente cansado disso tudo. E não é problema com trabalho, com pai, com mãe ou com vontades; são as persistentes batalhas contra si mesmo. Eu luto muito contra mim: luto para ser uma pessoa mais organizada. E não tô falando de bagunça de objetos, porque por incrível que pareça, neste quesito eu ainda me dou bem. A minha desordem é de ordem interior.
      Aqueles dias em que não se pode fazer nada se não quiser fazer nada. Falta vontade de sair da cama, e não há o mínimo de motivo plausível para isso. Nunca aconteceu uma tragédia de verdade na minha vida, eu não tenho nem um trauma que preste para usar de muleta, confesso que dá até certa inveja de quem tem. Dá-me tanto desespero perceber que eu estou lutando em círculos, que há cinco anos atrás o que eu projetei mudar em mim ainda não consegui. Repito, não tô falando de emprego nem de bens materiais... estes a fluidez da vida se encarregou em me trazer. É dessa solidão compartilhada. De gente igual a mim que vive perto de mim, ou se junta a mim nesta caminhada.
      Eu me perdi tanto em meu desejo de felicidade, na minha luta, na minha busca incessante por mim mesmo, que sobrou um arquétipo de personalidade, construída com muito trabalho por vinte e três anos. E eu me vejo daqui pra frente ainda me incomodando com isso. Só falta aprender a não se incomodar mais.
      A felicidade é algo tão momentâneo, tão relativo, que quando ela chega, lhe faz esquecer que em algum momento você não esteve satisfeito com a sua vida e quando ela vai embora, lhe faz esquecer que sequer em algum momento ela existiu.