20/02/2011

Professar

Caso algum de vocês ainda não saiba, sim, sou professor. Não há o que considerar publicamente (ou no blog) por enquanto, então, só vou deixar meu discurso de formatura, o qual acreditei ser... interessante.

Senhoras e Senhores, boa noite.

Quando desejei ser o orador de minha e de outras turmas da faculdade de educação, comecei a refletir sobre o que de fato significa discursar a vocês num momento deste. Mais do que uma solenidade, acredito que para a maioria de nós, esta formatura seja algo como um... Descarrego.
Não que tenhamos passado por um martírio ou tortura durante estes anos de formação, não também, que neste momento estejamos completamente absolvidos da necessidade constante de se dedicar com afinco ao estudo e à expansão de conhecimento. Este alívio pelo qual passamos, vem em grande parte dos nossos sentimentos mais intrínsecos e de nossos sonhos mais absurdos.
         E o que tem de absurdo sonhar? Ora... Seria hipocrisia dizer do alto da racionalidade que é plenamente comum desejar, nos tempos em que nosso país se encontra; ser professor.
Entenda-se: esta é uma das, se não, talvez, a, profissão que exige ensino superior oferecendo o menor salário.
“Mas professor reclamar de salário é figurinha repetida”.
Somos obrigados a suportar jornadas de trabalho estafantes, que muitas vezes comprometem a nossa saúde ao longo dos anos.
“Mas professor fica doente porque quer”.
Nosso trabalho não é valorizado pelos alunos, fato o qual, apesar de entristecedor, ainda é compreensível, frente à mesma desvalorização que sofremos por parte dos representantes públicos e de diversas pessoas da nossa sociedade. Frente também ao preconceito do qual somos vítimas:
“Mas... você vai ser professor?” ou “Você é professor? Mas trabalha com alguma coisa?”
Entendo que estejam decepcionados, talvez o papel de um orador seja o de animar e conduzir a solenidade à plenitude da alegria e da autorrealização. Contudo, é exatamente o que estou fazendo.
Colegas formandos, atuais e futuros professores, ignorar as dificuldades e encará-las simplesmente com misantropia, é uma atitude ignorante e, por consequência, cômoda.  Animar-lhes com palavras lustrosas aqui e hoje, sabendo que semana que vem muito de vocês encararão uma quinta série com 40 alunos, sedentos pelo aprendizado, mas também pelo prazer de transgredir regras, seria crueldade da minha parte.
Haja vista os tristes, porém realistas fatos, crueldade maior seria este discurso acabar por aqui, subentendendo-se que nossa escolha profissional foi errônea e não é nada gratificante. Sei que se agora eu solicitasse de vocês que puxassem pela memória os seus professores de antigamente, a maioria das recordações viriam daqueles que em algum momento nos decepcionaram ou coagiram a aprender. Porém, decerto que ao menos uma lembrança será positiva. Daquele ou daquela, que no momento correto proferiu uma palavra amiga, um incentivo bem cabido, ou ensinou livre de autoritarismo e preconceitos.
Estes professores ou professoras que atravessam o nosso caminho como que por acaso, e têm a capacidade de alterar completamente a nossa percepção sobre determinado assunto, além de conseguir que tomemos gosto por seus ensinamentos; conseguem que ansiemos em descobrir mais.
Pessoas assim que passaram por nós não só durante a educação básica, mas por aqui também, nesta faculdade. Durante os anos mais confusos e cansativos dos quais disse antes que estamos nos descarregando. Apesar de tortuoso destino, somos produtos de uma formação acadêmica na qual pelo convívio e observação, aprendemos com os bons professores e conosco em nosso cotidiano. Anos de desespero, de raiva, de incertezas, mas de muitas risadas e esperança. De fato, foi daqui que absorvemos os conceitos e as técnicas para o “ensinar”, entretanto, o que seria desta nossa caminhada sem os amigos que conquistamos e estamos levando para o resto da vida? Amigos muito semelhantes, que a despeito de toda a pressão cotidiana, mostram-se compreensivos, mesmo com as freqüentes discussões sobre “bobeira qualquer”. É a amizade!
         E é daí que parte o meu apelo, caros colegas, não façam estes anos todos serem em vão. Encarem de cabeça erguida os empecilhos que surgem a todo tempo, e que muitas vezes conseguirão nos tentar a não levantar da cama para ir dar aula cedo. Vamos todos procurar meios de resolvê-los, a fim de não anular tudo o que vivemos até aqui. Sem jamais, nos esquecermos de algumas atitudes fundamentais, como a de não limitar nossos conhecimentos simplesmente à sala de aula. Não é pecado ou ofensa alguma utilizar-se desta experiência sejam pra quais fins profissionais se adéqüem. Todavia, aos que desejem realmente a docência, não há muito a se complementar. Apenas um conselho originado de uma constatação. Jamais deixem de ser humildes, de aprenderem com os alunos, de pesquisarem o que não sabem e de não se utilizarem de um poder figurado de professor para oprimir e satisfazer o próprio ego. Não passem adiante o preconceito e opressão capitalista e intelectual que nós mesmos sofremos. Acreditem sempre no que estão fazendo e ensinando, pois quando deixarem de fazê-lo, não haverá mais sentido no descarrego que estamos vivendo hoje. O de finalmente ter um mundo de possibilidades para ensinarmos.

Muito obrigado.

Um comentário:

Mas será o Benedito? disse...

Eu estava lá pra ouvir. Foi bonitão mesmo.

Mas tem muitas palavras difíceis pra realidade da prole ali situada.