16/06/2009

Uma palavra pela outra.

-Jura!?
- Juro. É tudo o que eu sempre quis.
- Tipo o quê?
- Me dá carinho, me dá atenção, me faz rir.
- Mete bem?
Espanto:
- Em !?
Cara de coisa mais normal do mundo:
- Perguntei se faz o serviço direito.
Alteração nas sobrancelhas:
- Eu aqui falando de amor e você vem me falar em putaria?
Serenidade:
- É lógico que não. Desde quando sexo é putaria? ... Tá, eu entendo que vulgarizam isso às vezes...
Interrompe:
- ... Ainda mais quando usam termos chulos, feito "meter"
Pequena alteração:
- Ai! Enjoei desse seu puritanismo, sabe!? É só uma palavra diferente pra designar a mesma coisa. Se eu tivesse falado trepar, foder, comer, pimbar, transar... daria no mesmo!
- Chega!
- Chega nada! ... Do mesmo jeito que se eu tivesse perguntado "relaciona-se bem?" "executa o ato com maestria?" Dá tudo no mesmo.
Pequena pausa, réplica:
-Eu só não te dei liberdade pra tratar o MEU sexo por esse termo. O teu você trata como quiser, o meu não.


Marcelo entrou na estação de Metrô do Anhangabaú. Olhou pro celular "16:02", tinha tempo. Procurou pela fila do lugar em que se compram os bilhetes pro metrô. Vazia. Pegou com cuidado a carteira do bolso da frente e contou moedas: não tinha R$ 2,70 certeiros. Sobrava apenas a última nota de 50. Com mais cuidado ainda, aperta-lhe na mão, é o próximo a ser atendido.
- Eu quero uma.
O homem do guiché tinha uma expressão séria, inabalável, de repulsa e total vontade sair correndo daquele lugar. É claro que ele queria uma, ou duas ou tanto faz. Passasse o dinheiro de vez, ou ele seria obrigado a falar quanto custava? Viu que seria, apesar de vistosos e gigantescos letreiros informando o valor da passagem de metrô. Apesar de todo mundo em São Paulo saber quanto custa UMA passagem. Mesmo assim, o rapaz na frente dele mantinha a mesma cara vazia e de sorriso forçado. Devia ser do interior... é lá que riem assim feito idiotas. Deu-se por vencido:
- Dois e setenta.
Pronto! Tudo correra como o planejado. Marcelo triunfante pegou os cinquenta e passou pelo pequeno espaço. Agora seria a hora de soar simpático e, meio de viés, pedir desculpa por não facilitar o trabalho do cara, obrigando-lhe a contar quantas notas fossem necessárias ao devolvê-lo a diferença. Mas nem tudo sai como planejado, houveram lapsos na fala do rapaz:
- Eu só to sem troco, cara...
Era a iminente chance daquele homem da bilheteira se vingar do patético mocinho do interior.
- Troco é o que eu vou te dar, você está sem trocado.
E restituiu-lhe a diferença.




Ajoelhou-se, tirou uma pequena caixinha do bolso. Fitou-a com paixão e fulgor, tomou um fôlego e arriscou:
- Roberta, vamos juntar nossos trapos?
A moça no início do processo já preparava sua reposta positiva, ao ver o amado ir ao chão, procurar pelas alianças... quase disse o "sim" ao ouvir o "Roberta" no início da frase. Mas engolira em seco... "Juntar nossos trapos" !?
Fez-se poucos segundos de pausa. Que pra Roberta pareceram dois minutos e pra Adriano duas horas.
Ela só cuidava em pensar uma coisa: como Adriano podia ter estragado um dos momentos mais especiais da sua vida? Não podia dizer a frase padrão, como faz todo mundo, e como é deliciosamente romântico? "Quer casar comigo?" ou até um despretensioso e fofo "Casa comigo?"... mas JUNTAR TRAPOS!? Ela não era rota pra andar por aí em trapos. Ela não é colcha pra juntar retalhos.
Ele só cuidava em olhar nos olhos da amada, sem nem a vaga ideia do que acabara de dizer, pra ele foi um pedido normal, aliás, se fosse contar pra alguém contaria com a frase padrão. De fato o que passava na mente do rapaz é que a amada titubeava, e isso foi o calvário.
O silêncio finalmente fora quebrado, Roberta voltou a si:
- Não.
E continuaria sendo "Não" enquanto tudo não corresse nos conformes. Onde já se viu? Daí na hora da pergunta do padre ele responde "Afirmativo" !? Ela não teria brio o suficiente pra aguentar outra, na certa enfartaria, ela precisava mudar isso o quanto antes.



- Clica lá no vídeo. Banda "Rockers", acho que a música é "Rage Lovers".
- Cliquei... Nossa!... Que massa!
- Legal mesmo, !
- Sim!! Adorei isso que ela faz no final da estrofe. É lindo de se ouvir. Como chama mesmo?
- Voz.

01/06/2009

Apavorados

E o trato qual é ?
É não falar de amor, nega.
Mas como não falar de nós?

Como esquecer esse pavor que se apodera de tudo?
Desconsiderar juras e planos?
Sei lá se nasci assim,
sei lá se fui criado,
se me calejei ou simplesmente escolhi:
Eu sou realista.

Até demais, até o ponto das vísceras retorcerem-se de pânico do futuro.
Porque eu sei que dia a dia eu vou lhe amar por uma coisa diferente.
Vou lhe admirar,
por coisa e tal.

Do âmago me sai um juramento,
uma jura que põe em vão
o controle sobre a eternidade.

E você diz:

"Simplesmente não precisa,
é lindo mas não realiza
o controle que temos de nós.
Sabemos do agora, não do após."

Ai, menina, lhe amo mais agora.

E você, dominando com maestria a arte do juramento
jura diferente, mostra a melhor opção pro momento:

"Eu lhe juro que vou lutar até não ter mais jeito pra que tudo dê certo."


Entre juras e lutas, existem centenas de quilômetros.
Entre um homem e uma mulher, absolutamente nada.
De hoje em diante:

D E S P R E
T E N S I O S A
M E N T E