05/06/2013

Out do In

Entra no boteco suburbano, decorado com fotos P&B, bandeiras arco-íris e uma estátua do buda no canto do salão; passa pelas pessoas sentadas, perdidas entre doses de conhaque com limão, cervejas mais amargas que a média; entreolha os pares de all-stares, os moletons e os cachecóis xadrezes; sobe no pequeno palco usado vez ou outra para declamar poesias ao toque do violão; para e observa cada um dos presentes. Estes ao notarem a presença do rapaz cessam de assobiar bossa-nova. Ele estufa o peito de coragem e manda às favas as consequências, julgá-lo-iam  incessantemente depois disso, mas não importava. Quando a batida indie da jukebox termina de tocar ele aproveita o silêncio coletivo para fazer a revelação fatídica em alto e bom som:

- Meu CD preferido do Los Hermanos é o primeiro.

Deixa o bar sem o brio de olhar pra trás e fitar os olhares de indignação.

14/05/2013

É fato?

Um universo, 
um pensar,
um modo de agir, 
um círculo de amizades 
e principalmente uma personalidade 
não se cria.

Se é.
Se absorve, se constrói.

O fato de se confirmar,
a si e aos outros,
não lhe faz mais dono de si.
Apenas se é se se age
não se se faz agir.

17/04/2013

Falando de religião

Eu saio na hora do almoço da escola às quartas-feiras e, após resolver algumas coisas da vida, cheguei em casa como sempre na vontade de usar o computador. Minha irmã estava no meu quarto e meu notebook só se conecta á internet quando cabeado, então peguei o pc da minha mãe e fiquei na sala. 

Só estou descrevendo isso, porque é algo que NUNCA ocorre, não fico normalmente na sala  de casa às três da tarde. Foi quando tocou a campainha no melhor "tem um tempinho para Jesus?". Olhei pelo vidro da porta: dois daqueles rapazes de camisa branca e gravata que passam pelas ruas. Certa vez eles vieram em casa e conversaram com meu pai.

Eu sabia no que aquilo tudo ia dar, entretanto eu não era o mesmo daquele tempo... minha fé e meu conceito de religião já mudaram muito. Fui atendê-los.
Um era bem branco, alto, com um sotaque estrangeiro: americano ou inglês. O outro era mulato mas falava meio ressabiado de boca quase fechada... tentei identificar naquele momento de que país era, mas foi em vão.

 - Marcelo, podemos conversar com você sobre Deus e Jesus Cristo?
 - Podem.
 - Você acredita em Deus e em Jesus Cristo?

Por mais perverso que eu seja, ou tenha a capacidade de ser, não quis mentir, como se fosse ou estivesse revoltado naquele momento; nem afirmar algo diferente do que eu fosse. Queria ter na sinceridade o melhor de mim. Detesto isso de ser ator na vida real, eu busco mais é por mim mesmo.

 - Acredito.
 - Podemos entrar?

Minha irmã estava no quarto, meu pai lá no fundo... seria uma chance só minha. Abri o portão e eles entraram, pedi que sentassem. Um deles pediu água, justamente como foi daquela vez, fui buscar. Passaram o olho pela minha sala, viram a bíblia da minha mãe aberta sobre o móvel e a figura de santos atestando a veemência do catolicismo nesta casa. Comentaram algo entre eles, acho que são instruídos a fazer este escaneamento. Trouxe a água pro loiro.

- Você mora com quem?
- Com os meus pais.
- Oh... que ótimo... quantos anos você tem?
- Vinte e quatro.

Entreguei o copo ao rapaz e percebi o olhar tímido do moreno. Perguntei se ele também queria água, e com uma resposta deslocada e afirmativa parti em busca do outro copo me desculpando pelo mal jeito. 

Pediram pra fazer uma oração antes de conversarmos, tive que desligar a TV. Tava passando "O Profeta"... emblemático!

Rezaram bonito, eu gosto quando fazem pedidos e agradecimentos simples e diretos. Começou a pregação a respeito do amor de Deus e dos profetas que Ele manda pra terra... Moisés, Abraão, Jesus... conheço a história deles. Até chegarem no ponto, o profeta que os mórmons elegeram como deles, "Joseph alguma coisa", cuja visão de Deus e Cristo em um bosque o inspirou a criar uma igreja: "A igreja de Jesus Cristo dos últimos dias" ou algo assim.

Eu ouvia e observava pacientemente, relacionando aquela visita com tudo que eu ouvira no passado. Eles falavam sobre "apostasia" que é o período em que o mundo fica uma confusão por falta de profetas, mas que com Joseph e seus sucessores isto não aconteceria mais. Até então me parecia simpática a crença deles. E é sobre isso que eu queria comentar antes de entrar na questão em si: eu acho muitas crenças simpáticas, inclusive a falta de. O que eu não gosto é da imposição de valores por causa de uma religião, da intromissão na vida alheia, de segregar em nome da fé.

Então ele me perguntou se eu percebo que atualmente no mundo há muitas crenças difundidas, várias igrejas, muitas pessoas falam em nome de Deus. Confirmei. Ele me perguntou o que eu achava disso, naturalmente esperando que eu dissesse que no mundo deveríamos seguir uma única fé. Que só sendo da igreja, da seita, ou do clã X ou Y nós nos salvaríamos (isso me lembrou daquele vídeo do Porta dos Fundos "Deus", vejam, é ótimo). 

Qual não foi a surpresa do rapaz loiro - que vinha conversando comigo todo o tempo - quando eu disse que não acho isso ruim. Que um Deus justo e verdadeiro não ia se importar com o modo que as pessoas o seguem, que dogmas, crenças e valores são parte de imposições sociais; o Deus que eu acredito quer que as pessoas evoluam e sejam melhores dentro daquela realidade que lhe é imposta, qualquer coisa além disso seria injustiça. Seria injustiça com aquele hindu criado nos confins da índia e incutido por seus pais, irmãos, tutores e vizinhos em uma determinada fé não ter nesse Deus cristão o olhar de compreensão. Eu disse compreensão e não salvação. Isso de "salvação" é uma balela. Quando morrermos não vamos nos salvar, vamos nos COMPREENDER. A nós e talvez a Deus, mesmo que um pouquinho. 

Assustaram-se... tá que não fui tão eloquente quanto agora, escrevendo. Mas mesmo assim eles perceberam que terreno pisavam. Católico? Não... não poderia...

- Qual é a sua religião, Marcelo.
- Eu sou espírita. Meus pais são católicos e eu sou espírita.
- Oh... - com um olhar de certa alegria, o loiro
- Kardecista? - o moreno, querendo encontrar algo que no momento não entendi o que era.
- Sim.

Pois bem, eles persistiram, falaram mais um pouco sobre Deus e a necessidade dos profetas. O loiro disse que ele acredita nisso com tanta força porque houve um dia que ele perguntou "Deus, isso é real, é esse o caminho que devo seguir?", e Deus respondeu que sim. 

- Marcelo, você estaria disposto a fazer esta pergunta a Deus?
- Estaria.
- E você estaria disposto a viver conforme as regras que esta resposta trará?
- Não.

Choque. E segui com minhas explicações:

- Eu não preciso, eu já me achei. Eu também já passei pelo meu momento de contestação, de dúvida, de não entender porque eu estou aqui e desse jeito. Tive motivos nas religiões e na minha própria vida para duvidar de tudo, para inclusive não crer. Cheguei a não crer, mas não perguntei nada pra Deus... eu fui atrás do que me tocou e ainda me toca. Você diz em profetas e eu posso até acreditar que Deus realmente apareceu para Joseph, não duvido e respeito muito sua fé; aliás, acho louvável o que vocês fazem em tentar trazer esperança pra quem não a tem. Mas eu também acredito no que Allan Kardec falou, não como profeta, mas simplesmente como uma pessoa inteligente que soube interpretar a Palavra, acredito em Chico Xavier, acredito em muita coisa e essas me tocaram verdadeiramente. Não vejo necessidade em trocar. Fé é fé.

O moreno se manifestou finalmente, naquela contenção, naquela boca quase fechada, visivelmente tenso:
- Eu vou tentar falar sem ofender... porque eu sou do Ceará.

Morrendo de rir, por dentro, eu disse que ele poderia falar que não iria ofender não. Ele acabou se repetindo na verdade. Chegamos num ponto sem saída, eles não sairiam do que acreditariam e nem eu, me convidaram a assistir um culto. Bem... tentar nunca é demais. 

No fim eu compreendi que aquele sotaque não era nada estrangeiro, e que ele me perguntou se eu era Kardecista pela difusão das religiões de cunho africano no nordeste e o contato que ele já deve ter tido com Umbandistas e pessoas do Candomblé. Não vou entrar neste mérito agora, mas é triste o preconceito que estes segmentos sofrem.

Em seguida eles pediram para encerrar e pediram pra que eu fizesse, se possível, uma oração. Pedi o que sempre peço: força e determinação para mim e para eles, em  fazer deste mundo um lugar melhor e com menos injustiça, seja qual caminho seguirmos. É meio que uma oração padrão de professores.

Foram embora, talvez desapontados, talvez não. Eu precisei desabafar - escrevendo - porque nunca me ficou tão claro que no fim das contas as pessoas não estão buscando um Deus, uma fé, uma verdade, um Amor... elas estão buscando um caminho único. Elas querem se sentir confortáveis "Ah.. eu tô certo, porque sou dessa igreja, coitado de quem não está, vai pro inferno ou afins". Mas a estrada até Deus não é de mão única, ela se desdobra por vias incontáveis... O que me irrita fortemente são aqueles religiosos que agem feito "caminhões" querendo atropelar a todos impondo a sua fé como verdadeira. Não acho que os dois fizeram isso comigo, até fariam se fosse alguém com menos elucidação. Com simpatia, penso que no final das contas eles estão buscando de Deus, antes de morrerem, o mesmo que eu: compreensão.

31/03/2013

Antecipação da partida.



Junto com as chaves e a xícara de café, quiçá o último gosto amargo que sentiria naquele lugar, ele deixou alguns escritos. Para fazê-los sintetizou o que havia sido sua vida até agora. Escrevera as palavras no alto da frieza, mesmo estando com o coração dilacerado; ia embora naquele momento com um sentimento de derrota. Ele estava indo como um perdedor, porque por mais que tentasse as coisas não seriam nunca do jeito que ele imaginou.
Dentre os desabafos daquele papel estavam os motivos, a falta do diálogo talvez fosse o principal. "Por não tentarem me compreender, por não virem conversar comigo".

Olhava para o passado e percebia "Poxa, pela primeira vez na vida eu tô feliz de verdade. Vocês têm noção o que é ver as pessoas vivendo as coisas? Irmãos, amigos, primos.. e você sempre de lado? Conformado-se que ia viver sozinho? Que seu estado permanente é este, que nasceu para estar deslocado e usa isso como desculpa pra ser tão aheio às pessoas. Mas não é assim, nenhum ser humano é uma ilha." 

Detestava se colocar no papel de coitado. E naquele momento, naquele trago de cigarro fora de casa pra não deixar o cheiro vinha a vontade de não deixar a insegurança dominar: a verdade é que nunca se achou bom o suficiente pra alguém. Passou a vida ouvindo que incomodava quando abria a boca, que aquilo por ele lutava era inútil, que seu sonho é coisa de vagabundo, ou até se olhar e perceber que nunca seria bonito o sufiente. Agradar seria luxo. Mesmo assim...

Mesmo assim... Um dia deu certo. A vida prega peças, e faz dá certo. "Tanto que quando dá certo... eu me perco! Eu não sei como agir, eu surto em determinados momentos."

E ele sempre fingia não se importar. Amarrava os tênis e fechava a mala pensando:

"Mas é isso...?
Sair e pronto?
Ficar o dito pelo nao dito?
É isso ou conviver dando murro em ponta de faca?
Eu aprendi a me fazer feliz .. por mais egoísta que isso possa soar."


Ele chegou no ponto: Egoísmo. 
Conforme vinha no bilhete "Percebo a demonstração que os faço infelizes... OK, mas e eu? É como se eu tivesse tido OPÇÃO. E eu nao quero nem imaginar que tipo de pessoa eu seria se vivesse uma mentira, sinceramente, eu seria uma pessoa do mal. Eu ia ter tanto ódio por nao ser quem eu queria, que eu destruiria os outros, segregaria, seria preconceituoso, arrogante, invejoso...num nível muito maior daqueles que agridem, machucam. Eu nunca fui um cara da violência; mas todos estão cansados de saber que quando a raiva me domina a minha vontade é falar e calar fundo, pra causar traumas de modo que a pessoa nunca se esqueça de quanto uma palavra pode machucar."

Se problema é a merda do: " Mas o que vão dizer..."
Então, aquelas malas que ele carregava para o carro não significavam um abandono e muito menos que nunca mais ia falar com ninguem, mas iria viver da maneira que julgava honesta, sem precisar mentir nem ocultar nada a ninguém.


Não que ele pudesse dizer que nao teve melhoras, justiça seja feita, porque já tinha ouvido os desejos de felicidade, que o julgamento cabe a Deus, etc.

Mesmo assim, dava partida no carro e acenava se sentindo o maior derrotado da face da terra. E que se tivesse coragem, poderia ter pedido socorro antes de tudo chegar naquele pé, ainda que não diretamente, ainda que em um de seus "bilhetes".