18/09/2009

Arquivo bienal.

    De fato, se eu (e observe que pelo pronome, mais uma vez o ego ísmo/centrismo imperará no texto) quisesse fazer um estudo cronológico da existência desta página da internet, nomeada pelo delicioso e quase ínfimo verso de Chão de Giz, confundir-se-ia com minha evolução ao decorrer desses dois anos. Principia-se com a criação do blog naquela noite de julho de 2007 e o estabelecimento de sua ocupação na world wide web: uma página vazia
    Uma semana depois, vim a conhecer aquela que seria minha eterna Pierrot, não sem antes pseudonomear-me de Harlequin: fato muito aceito, usado e estudado por mim. Nossa convivência forçada aconteceu apenas no mês seguinte, quando todo o batismo Comédia Dell'art supracidado ocorreu.
   Em setembro do mesmo ano, este antro de fato nasceu, saindo da gravidez nua em que se encontrava e parido com a colagem do texto todo remendado do Plínio Marcos, recém lido e cheio de necessidade de aparecer por aí fazendo referência a mim mesmo. Aquela que me aguenta e ama - reciprocamente - leu e comentou. Comecei a gostar da ideia.
   Seis meses de curso pré-vestibular focados apenas na alcoolização e na descoberta dos horizontes sexuais e antropológicos - absurdo e real, creia - formataram o resultado de não se passar no vestibular para a pública e na consolidação daquilo que eu espalhei aos quatros ventos: a decepção de continuar a viver em Itu e de estudar no lugar que sempre falei mal. Tudo isso na verdade não passava de ser o que eu sempre quis fazer, queria fugir daqui só pra viver minha vida de boemia reflexiva, conquanto ainda tivesse a quem recorrer.
   Voltando à história do meu compilador virtual, a ascensão à vida acadêmica, cujo resultado não foi nada inovador, trouxe-me de novo àquele ímpeto de escrever e ser lido, coisa que o fiz, em fevereiro deste ano que passou. O amigo pra todas as risadas e papos lia, comentava e incentivava - isso tudo sem que eu pedisse - daí fui descarrilhando palavra por palavra. Consegui dar continuidade nisso, só pela grande ajuda do amigo lá de longe e de perto, que sempre achava boas minhas ideias. 
    Aprendia na instituição eternamente criticável os novos conceitos e formas de exploração do código, o que foi deliciosamente útil ao meu intelecto pseudodramaturgico, sempre citado por mim aqui ou acolá. Aventurei-me na prosa: contos, peças, crônicas, slogans, diários (exclusivamente neste texto aqui) e o que mais o humano possa criar nome; e, cônscio do risco, também neste universo poético explorado tão bem por tantos, inclusive pelo meu amigo que dá raiva do tanto que gosto.
  Só um paragrafozinho sobre a poesia: a primeira da vida foi pra minha maior cúmplice e eternamente primeiro amor, mas o texto não foi upado pra rede; o segundo - já aqui - foi escrito pro amor da minha vida que eu ainda não conhecia, obsoleto dizer que já sei quem é e por ela já foi lido. De resto, poetizei para mim próprio e para um ou outro flerte. Fim do parágrafo sobre textos em versos.
  Entrando no conclusivo, dois anos de textos são a minha prisão com a realidade, o meu "eu" refletido de uma forma arquivativa. Quero daqui a 40 anos ler um por um e rir dos meus desencontros e do processo de segmentação da minha personalidade lúdica e lírica. Eu mereço os parabéns vindo de mim, por manter mês a mês, com pouca ou muita produção, o hábito da escrita, para que assim eu nunca fuja dos meus objetivos - sabe-se lá quais - e das minhas ganâncias. 


"Finjo que escrevo para os outros, a boa verdade é que o escrevo para fugir de mim e leio-me para voltar a si." M.A. 

9 comentários:

Marília disse...

Marcelo, ótimo! A frase final amarrou perfeitamente o texto! Que orgulho dessa pessoa que eu tenho como irmão (:

Tiago Faller disse...

Ora, cara, que falta que 'tava fazendo eu passar por aqui e TE ler. ^^

Amo e como! Refinadas palavras, eu curto!

"senao minha vida vai parar de fazer sentido a qualquer momento"

Tato Barba disse...

"Recordar é viver"

hahaha! Maior cara de baile da terceira idade! =P

Gostei muito, nego. Muito mesmo. Agora, só falta a palestra com uma ou outra citação do sujeito amigo que, ainda flertando com coisas da musica e literatura, deseja tanto chegar aos ouvidos (e por que não, depois do elogio, aos olhos?) do maior número possível de pessoas, como em seu caso supracitado. Será a mesma patologia? Coincidência? Não. Eu prefiro afinidade ou, ainda, quem sabe, comunhão-amistosa-artística.

Grande abraço!

Tato Barba disse...

"música" tem acento, porra! =P

Bárbara Araujo disse...

É tão bom que qualquer forma que eu encontre de elogiar ainda vai ser pequena.

Te amo.

Líviarbítrio. disse...

Ora, ora.
Rubem Fonseca disse: "Escrevo para retirar-me de mim mesmo." Só para complementar teu texto que está ótimo, como sempre.

Todas as palavras engatilhadas cronológica e poeticamente.

Grande abraço.

Emanuela disse...

Belíssimo texto! Sem dúvida, um escrito de grande talento!

Letícia disse...

“Vocação é diferente de talento. Pode-se ter vocação e não ter talento, isto é, pode-se ser chamado e não saber como ir.” (Clarice Lispector)
Você foi chamado, e prova cada dia mais que sabe como ir.

Alex Pinheiro disse...

Salve! Venho vagando links deixados,,, gostei um tanto da sua ideia. Quando leio sobra o aborto das letras lembro de Rubens da Cunha e seus ditos em "Pq escrevo".
Parabéns por aguentar-se diário na blogosfera. Parabéns!

Sempre tem gente boa,,, e sempre estão muito próximos... mesmo assim continuam admirando o passado e os mais vendidos.

Abraços e introspectivas invenções!