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A pedra no rio.

O ano era algum em torno de 1930. A moça era jovem, tinha dezesseis ou dezessete quando casara. O marido era mais velho, beirava os vinte e seis ou os vinte e oito. Ninguém sabia ao certo. As más e sinceras linguas diziam que a pressa no casamento aconteceu pela desonra da moça. Boato ou não, havia acontecido e ela pegou barriga.
Os patrões do rapaz deram moradia e função a ambos. Ele carpinava, roçava, ajudava na lavoura e ordenhava os animais. Ela ficava na casa grande, fazendo companhia e satisfazendo os caprichos da jovem senhora. A barriga crescia a cada dia.
Uma das funções da rapariga era lidar com louças e roupas, trabalho o qual lhe satisfazia, pois ia pra beira do rio, com o céu e a imensidão do mundo [nada interessantes a ela] acima. De bacia na mão - o alumínio alumiava-se pelo sol - cantarolava uma das canções que ouvira da ama mais velha. Usava a barrigona de apoio para algumas peças de roupa, enquanto esfregava uma na outra de cócoras.
A menina gritou por ela lá da casa grande, a moça soltou um resmungo baixo que se misturou com a canção, olhou e levantou. O barro estava molhado, escorregou e caiu sentada.
Foi grande a comoção -ainda sim amenizada, pois a parteira da vila estava próxima da margem - daí então um pulo pra que se aglomerassem.
- Caiu ? - dizia o marido chegando - Como?
- Sentada. - a parteira fitou-o com repulsa - Afasta, afasta. Tráz a tesoura lá de dentro, esquenta ela antes.
O jovem saiu ligeiro, a rapariga berrava as dores.
- Esse bucho é de oito mês. Quando ocê deitou com ele que parou de vir as regras?
A moça esitou. Dizer pra própria mãe coisas do tipo não era de seu agrado.
- Dispois da quermesse de Santo Tonho. Antes do casório.
A velha senhora engoliu o sermão, saber que a filha tinha sido desonrada não era mais novidade, apenas confirmação.No entanto foi depois do que imaginara que tivesse sido. Fez as contas e disse:
- Então é bucho de seis. Mesmo assim caiu sentada, tá coroano já. Vo ter que tirar.
Do alto de sua inocência e sofrimento a filha perguntou:
- E vai sair por onde?
Mãe conhecia filha, e respondeu firme e tradicionalmente.
- Pelo mesmo lugar que entrou.
Foi um susto.
- Mas como? Vai arreganhar?
A senhora então pegou uma pedra próxima e atirou no rio. A moça observou. Em seguida a póetica explicação.
- Vês? A água abre, agita pra pedra passar, mas depois que passa, a água fecha e volta tudo como era antes.
Tudo o que precisava ser sabido, já era. As dores aumentavam, a dificuldade também. De quando em quando entre urros a jovem perguntava
- Vai demorar muito?
O marido voltava com o pedido, foi difícil esquentá-lo, mas antes ainda foi mais dificil descobrir de que se tratava uma tesoura.
- Vai demorar muito? - insistia a rapariga.
A mãe ignorando, terminou e puxou. Gêmeas. Mortas. Usou a tesoura nos cordões, arrancou a placenta. Jogou tudo no rio. Olhou para o marido e fez com os dedos o número "dois". A rapariga intrometeu-se
- Vai demorar duas hora ainda??

Comentários

Lívia Brito disse…
Adorei a metáfora, e o conto.

;)
Tiago Faller disse…
Além de eu adorar esse tipo de post, você ainda quebra tudo com isso:

"A água abre, agita pra pedra passar, mas depois que passa, a água fecha e volta tudo como era antes."

Magnífico! =)
Lívia Brito disse…
E adorei o novo layout! ;)

;*
Lívia Brito disse…
hey

desse jeito vou ficar me achando demais, hihi.. gostei do seu cometário lá na Coluna!!! *.*

Obrigadinha.
Não chegou nada para mim no msn.

tenta add de novo
liviabr@hotmail.com

;)
beijinhos.
Jéh. disse…
MSADLÇDASMLK eu ri '-'
e gostei, bem legal a história!
beijo celo celo <3
Eita... Adorei o conto! Parabéns!
Então vc faz Letras tb? É;... bem vindo ao clube... rs rs rs
Bjs e uma boa semaninha p vc!
E que sábado chegue logoooo

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